Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

 

Venho dar uma esmola

Ao Divino Espírito Santo

A Divindade que nos consola

Com o seu Divino Manto

 

As Festas do Divino Espírito Santo nos Açores remontam aos primórdios do povoamento no arquipélago e constituem um dos mais elucidativos testemunhos de fé do Povo Açoriano.

Estas festividades tiveram origem em Portugal Continental (provavelmente com a Rainha Santa Isabel) e foram introduzidas nas ilhas atlânticas pelos primeiros povoadores. Mas, e uma vez no microcosmo insular sujeito a sismos e a erupções vulcânicas, foram adquirindo características únicas, em que o profano muitas vezes se mistura com o sagrado numa genuína demonstração da cultura popular.

Todas as ilhas dos Açores têm a sua forma muito peculiar de celebrar estas festas, sendo de realçar a Ilha de Santa Maria, Terceira, São Jorge e o Pico onde o carácter extrovertido e festeiro do Açoriano se manifesta de uma forma mais vivida.

Em São Miguel , tais festividades tiveram como principal motivo, o terramoto de 1522 que arrasou Vila Franca do Campo, levando o povo micaelense a implorar a divina protecção. Contudo, foi com D. Manuel da Câmara, 1º Conde da Ribeira Grande, que as Festas do Espírito Santo passaram a ser celebradas com maior pompa e circunstância, por causa do nascimento do seu único filho, D. José da Câmara, visto que tal acontecimento foi atribuído à divina intervenção.

Actualmente, não existe freguesia em todo o arquipélago que não tenha a sua “irmandade”, uma espécie de confraria formada por “irmãos” que todos os anos sorteiam os cargos dos mordomos para o ano seguinte.

Os irmãos que tiveram as seis primeiras domingas têm a responsabilidade de realizarem a sua respectiva coroação ornamentando para tal, o melhor quarto da casa que irá receber a coroa e rezar diante do Altar desta, o terço todos os dias à noitinha.

Todavia, é na Sétima Dominga que a Festa do Espírito santo atinge o seu auge, altura em que o “mordomo”, ou “imperador” tem a seu cargo, não só a coroação, mas também a organização da dispensa, a distribuição das pensões, a função na igreja e o “império”.

Na Ribeira Quente, as festas em louvor da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade revestiam-se, antigamente, de um carácter mais festeiro, dado que os mordomos do lado do Fogo e os da Ribeira realizavam as mordomias no mesmo dia, e desta forma, toda a freguesia estava em festa. As festividades duravam cerca de quatro dias, estando os primeiros dois destinados a ir buscar os “gueixos” aos pastos, onde estiveram a engordar sob a responsabilidade dos criadores. Depois, percorriam as ruas da Ribeira Quente numa romaria divertida, ao som da folia composta pelo tambor, ferrinhos e violas com os “gueixos” à frente todos enfeitados com rosetas ou flores de “papoilas” e fitas de papel de várias cores. Assim, ia-se mostrar os bezerros do lado do Fogo à Ribeira e vice-versa, com o objectivo de se ver qual o gado mais bem enfeitado e o mais gordo. A tudo isto, se juntava o alarido da rapaziada e o rebentar dos foguetes. O ambiente era de festa em toda a Ribeira Quente.

Na Sexta-feira à tardinha, os “gueixos” eram mortos no calhau e as suas carnes dependuradas na dispensa (casa onde se exponha igualmente os pães de trigo, os biscoitos ou argolas de massa e a massa sovada para serem bentos pelo pároco da terra no Sábado de manhã). Actualmente, e visto que a maior parte da população se dedica, quase exclusivamente, à pesca e não à bovinicultora, o ritual da morte do bezerro já não é muito frequente, sendo mais prático comprar a carne já pronta a ser distribuída nas pensões.

No Sábado e depois de terem sido bentas, distribui-se as pensões pela irmandade. As pensões traduzem-se em esmolas de carne, pão, vinho e massa.

Antigamente, estas eram distribuídas por moças com tabuleiros à cabeça, artisticamente decorados com colchas de renda e lençóis brancos (os que tinham o pão e a massa) ou colchas de damasco vermelho com verduras (para os que tinham a carne), sempre acompanhadas da folia e do som dos foguetes. A carne menos boa que, não tinha qualidade para ser distribuída pelas pensões, era oferecida às viúvas e outras pessoas carenciadas da freguesia. Assim, não se fazia as Sopas do Espírito Santo que actualmente já se fazem, retomando-se um costume que veio com os primeiros habitantes da Ribeira Quente.

O Domingo e a Segunda-Feira são os dias mais importantes. Para além da coroação, existe o “império”. Um aspecto peculiar era o facto de antigamente, a Sétima Dominga ser coroada pelo irmão que a tirava, e não pelo “imperador” que só coroava na Segunda-Feira.

Outro pormenor curioso das Festas da Ribeira Quente, eram as “companhas” de pescadores que vinham, acompanhados dos foliões, dar o seu donativo tanto ao Senhor Espírito Santo da Ribeira como do Fogo. Essa esmola resultava do “quinhão” que durante todo o ano amealhavam do seu lucro das pescas, cada vez que iam para o mar. Muitas vezes chegava à módica quantia de uma “serrilha” ou de três vinténs”. As restantes pessoas que, para pagamento de promessas ou para simplesmente contribuírem para a mordomia, davam a sua esmola ao “império” em produtos hortícolas, ovos, coelhos, limas até mesmo cargas de lenha trazidas por burros que serviam para arrematar em favor das festas e recebiam em troca um quarto, metade ou mesmo um pão de trigo inteiro (conforme a esmola dada), conjuntamente com um queijo branco. Presentemente, as esmolas consistem na sua maior parte em donativos monetários e, como oferta, as pessoas obtêm massa. Na Segunda – Feira, a expectativa dos irmãos aumenta à maneira que se aproxima a hora de se tirar as sortes o que geralmente acontece por volta da meia-noite, sendo desejo comum o de se ter uma Dominga, especialmente a Primeira. É de salientar que durante as festas há sempre petiscos no bar da mordomia e a possibilidade de se experimentar a nossa “sorte” no bazar.

Viva ao Senhor Espírito Santo!

Que nos ilumine no nosso dia a dia!

 

João Costa

 



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Concretizamos tudo quanto foi dito da festa, como mediação do sagrado, e do catolicismo popular, nas festas do Divino Espírito Santo, tal como são vividas nas ilhas dos Açores, há cinco séculos, ainda que com matizes próprios de cada ilha. Não pretendemos defender uma tese sobre a origem, a hora e o momento únicos que determinaram o culto e a sua forma tal como a temos. Concluímos que há raízes antropológicas e bíblicas, históricas e geográficas tão profundas, oferecendo uma complexidade de origens que não se compadece com aquela pretensão.

Os símbolos pelos quais o culto se exprime, não são propriedade da região, mas do Universo Humano e, quando aplicado pela Bíblia, falam a linguagem do Espírito e da fraternidade pós-pentecostal, além dos símbolos reais e imperiais, relacionados com a imagem do Império espiritual - real, que também não são estranhos à Bíblia, não narrasse ela o percurso de uma monarquia até à chegado do reino de Deus, entre os pequenos da terra.

O culto, sob a forma de império, que surge na Europa cristã do século XIII, é apoiado por imperadores e monarcas, oferecendo alguma resistência ao poder papal absoluto da época medieval e da Renascença.

Pela família real portuguesa, com o apoio dos franciscanos, entra em Portugal continental; chega às ilhas dos Açores com os primeiros habitantes que teriam de ser católicos, por decreto real, e que, por eles mesmos, trazem as suas tradições. Permanece na alma e no isolamento dos ilhéus, com elementos simples pelos quais o povo se podia exprimir, compreendendo e vivendo a religião, no temor a Deus, vivência condicionada pelo processo vulcânico e sísmico, e outros fenómenos que fazem com que a mãe

natureza, por ali, fosse tão grata quanto agreste.

 Por outro lado, o clero, de procedência local, já nasce na "cultura do Império", vivendo-a real e culturalmente e tolerando-a doutrinal e disciplinarmente.

Neste texto descreve-se o ritual semanal da festa, decorrente durante todo o tempo pascal, assinalando as potencialidades e benefícios deste culto, que, como toda a religiosidade popular, foi motivo de divergências e diversos problemas, uns por falta de evangelização e sentido eclesial, outros fruto de autoridades e lideranças locais mais articuladas.

A Páscoa é a grande festa dos cristãos; é dela que surgem todas as outras. Nesse dia "desperta" o Espírito Santo o mais festejado. Popularmente nos Açores, como testemunham Roberto de Mesquita, Antero de Quental, Armando Cortes-Rodrigues, Vitorino Nemésio... Natália Correia ou Luís Ribeiro, entre outros, que cantaram e saborearam os Açores. Destas fontes bebeu o decreto legislativo 13/80/A, que formula a criação do feriado regional nestes termos: "Formada por pequenas comunidades isoladas durante séculos, a Região Autónoma dos Açores manteve cultos e práticos profundamente populares, totalmente enraizados no quotidiano e de origem vincadamente portuguesa. Porventura o mais significativo de todos será a comemoração do Espírito Santo - em que se entrelaçam as mais nobres tradições cristãs com o celebração da Primavera, da vida, da solidariedade e da esperança (...).

As celebrações são tão espontâneas, tão vividas e tão intensas que a natureza das coisas como que impõe um inevitável descanso no primeiro dia útil que se lhes segue. Porque é o mais popular dos dias de repouso e recreio de toda a Região, entende-se justo consagrá-lo como afirmação da identidade dos açorianos, da sua filosofia de vida e da sua identidade regional (...)" (Jornal Oficial dos Açores, I Série, 192, 21-8-1980).

Vitorino Nemésio (Mau tempo no canal. Obras Completas VIII, Lisboa, Imp. Nac., Casa da Moeda, 1994, p. 173) reconhece que "os festas do Espírito Santo enchem a primavera das ilhas de um movimento fantástico, como se homens e mulheres, imitando os campos, florissem.

Da Páscoa ao Pentecostes e à Santíssima Trindade são sete ou oito semanas de ritos de uma espécie de florália cristã adaptados à vida da lavoura, dos pastos carregados de humidade e de trevo no meio das escórias de lava - "O Mistério".

Desde logo, nota-se a importância do clima atmosférico no ser açoriano e na sua religiosidade: nebulosidade e precipitação frequentes, ventos fortes e mar alteroso, humidade de "engordar pastos", vulcanismo, etc.

 

 

(Pe. Helder Fonseca Mendes,

Vigário Geral da Diocese de Angra)

 



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