Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

 

Concretizamos tudo quanto foi dito da festa, como mediação do sagrado, e do catolicismo popular, nas festas do Divino Espírito Santo, tal como são vividas nas ilhas dos Açores, há cinco séculos, ainda que com matizes próprios de cada ilha. Não pretendemos defender uma tese sobre a origem, a hora e o momento únicos que determinaram o culto e a sua forma tal como a temos. Concluímos que há raízes antropológicas e bíblicas, históricas e geográficas tão profundas, oferecendo uma complexidade de origens que não se compadece com aquela pretensão.

Os símbolos pelos quais o culto se exprime, não são propriedade da região, mas do Universo Humano e, quando aplicado pela Bíblia, falam a linguagem do Espírito e da fraternidade pós-pentecostal, além dos símbolos reais e imperiais, relacionados com a imagem do Império espiritual - real, que também não são estranhos à Bíblia, não narrasse ela o percurso de uma monarquia até à chegado do reino de Deus, entre os pequenos da terra.

O culto, sob a forma de império, que surge na Europa cristã do século XIII, é apoiado por imperadores e monarcas, oferecendo alguma resistência ao poder papal absoluto da época medieval e da Renascença.

Pela família real portuguesa, com o apoio dos franciscanos, entra em Portugal continental; chega às ilhas dos Açores com os primeiros habitantes que teriam de ser católicos, por decreto real, e que, por eles mesmos, trazem as suas tradições. Permanece na alma e no isolamento dos ilhéus, com elementos simples pelos quais o povo se podia exprimir, compreendendo e vivendo a religião, no temor a Deus, vivência condicionada pelo processo vulcânico e sísmico, e outros fenómenos que fazem com que a mãe

natureza, por ali, fosse tão grata quanto agreste.

 Por outro lado, o clero, de procedência local, já nasce na "cultura do Império", vivendo-a real e culturalmente e tolerando-a doutrinal e disciplinarmente.

Neste texto descreve-se o ritual semanal da festa, decorrente durante todo o tempo pascal, assinalando as potencialidades e benefícios deste culto, que, como toda a religiosidade popular, foi motivo de divergências e diversos problemas, uns por falta de evangelização e sentido eclesial, outros fruto de autoridades e lideranças locais mais articuladas.

A Páscoa é a grande festa dos cristãos; é dela que surgem todas as outras. Nesse dia "desperta" o Espírito Santo o mais festejado. Popularmente nos Açores, como testemunham Roberto de Mesquita, Antero de Quental, Armando Cortes-Rodrigues, Vitorino Nemésio... Natália Correia ou Luís Ribeiro, entre outros, que cantaram e saborearam os Açores. Destas fontes bebeu o decreto legislativo 13/80/A, que formula a criação do feriado regional nestes termos: "Formada por pequenas comunidades isoladas durante séculos, a Região Autónoma dos Açores manteve cultos e práticos profundamente populares, totalmente enraizados no quotidiano e de origem vincadamente portuguesa. Porventura o mais significativo de todos será a comemoração do Espírito Santo - em que se entrelaçam as mais nobres tradições cristãs com o celebração da Primavera, da vida, da solidariedade e da esperança (...).

As celebrações são tão espontâneas, tão vividas e tão intensas que a natureza das coisas como que impõe um inevitável descanso no primeiro dia útil que se lhes segue. Porque é o mais popular dos dias de repouso e recreio de toda a Região, entende-se justo consagrá-lo como afirmação da identidade dos açorianos, da sua filosofia de vida e da sua identidade regional (...)" (Jornal Oficial dos Açores, I Série, 192, 21-8-1980).

Vitorino Nemésio (Mau tempo no canal. Obras Completas VIII, Lisboa, Imp. Nac., Casa da Moeda, 1994, p. 173) reconhece que "os festas do Espírito Santo enchem a primavera das ilhas de um movimento fantástico, como se homens e mulheres, imitando os campos, florissem.

Da Páscoa ao Pentecostes e à Santíssima Trindade são sete ou oito semanas de ritos de uma espécie de florália cristã adaptados à vida da lavoura, dos pastos carregados de humidade e de trevo no meio das escórias de lava - "O Mistério".

Desde logo, nota-se a importância do clima atmosférico no ser açoriano e na sua religiosidade: nebulosidade e precipitação frequentes, ventos fortes e mar alteroso, humidade de "engordar pastos", vulcanismo, etc.

 

 

(Pe. Helder Fonseca Mendes,

Vigário Geral da Diocese de Angra)

 



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Abril 2009